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quinta-feira, junho 07, 2007

Preservativos nas escolas

Outro texto interessantíssimo que circulou em uma lista católica.

Por Margarida Hulshof

Posicionar-se contra a instalação de máquinas de preservativos nas escolas é certamente importante, mas não basta se não se combate a doença que os provoca, ou seja: se não houver um real empenho na formação moral da juventude e da sociedade.
Sou professora aposentada, após 33 anos de magistério. Outro dia fiquei impressionada ao saber da implantação, pelo Ministério da Saúde, de máquinas de preservativos nas escolas públicas. Não sei por que os padres se calam sobre temas tão polêmicos, como se aceitassem tudo isso como natural. Podeser natural para a Rede Globo, mas não para quem se diz praticante da doutrina católica... Você não acha que os padres são muito passivos? Se eles não gritam, então as pedras falarão?
(Edith de O. Santos - Lambari/MG)
Existem, com certeza, muitos padres que não se calam, que ousam enfrentar os
"poderes" do mal para denunciar esse tipo de "injustiça" que tantas
"misérias" causa à humanidade, especialmente entre os jovens, "excluindo" os
filhos de Deus do acesso a muitos bens e oportunidades importantes para sua
salvação e realização humana integral. Mas é mesmo verdade que um numeroso
contingente de ministros do Senhor, constituídos pastores do seu rebanho,
sentem-se acovardados diante da ferocidade desse "lobo" da iniqüidade, e
preferem esconder-se atrás de um silêncio que soa como rendição, deixando
desorientadas e indefesas as ovelhas a eles confiadas.

Talvez seja porque o "lobo" é tão esperto e se disfarça tão bem em pele de
ovelha, que engana até mesmo os pastores... cuja atenção é desviada para
outros tipos de ameaças à integridade do rebanho, sem perceber esse mal que
vai roendo por dentro e que pode acabar tornando inúteis os demais
cuidados... já que não adianta garantir uma "vida" exterior quando não se
preserva, também, a vida interior que dá sentido a tudo o mais.

Posicionar-se contra a instalação de máquinas de preservativos nas escolas é
certamente importante, mas não basta. Essa medida, supostamente motivada
pela nobre intenção de prevenir doenças, no fundo é apenas mais um sintoma
da "doença" maior que é a perda dos valores morais, do sentido da pureza, da
consciência do pecado. E não adianta combater os sintomas se não se combate
a doença que os provoca, ou seja: se não houver um real empenho na formação
moral da juventude e da sociedade. E é aqui que, a meu ver, os padres se
mostram muitas vezes omissos, embora o magistério da Igreja continue sendo
claro e firme a respeito.

Penso nos contos para jovens do Pe. Heber Salvador de Lima S.J., que tanto
me inspiraram na juventude, e que até hoje gosto de reler. Os personagens
daqueles contos reconheciam a castidade pré-matrimonial como uma virtude a
ser admirada (mesmo aqueles que não eram capazes de praticá-la), e a pureza
era, ainda, uma qualidade naturalmente esperada de um jovem cristão. Mas
hoje, poucas décadas depois, o que se nota é que, realmente, a liberdade
sexual passou a ser considerada como algo totalmente normal, e até mesmo
desejável. Se, antigamente, uma menina teria vergonha de confessar que já
não era virgem, hoje ela se envergonharia, ao contrário, de o ser. Os
namorados que se casam (mesmo os filhos de famílias cristãs), apenas
"oficializam" uma união que já viviam, sem disso fazer nenhum segredo, nem
sentir nenhuma culpa.

E os representantes da Igreja parecem, de fato, conformados com essa
situação. Se não a consideram ideal, julgam-na, ao menos, inevitável... Não
faz muito tempo ouvi um padre dizer: "Não se iludam, porque a iniciação
sexual acontece na adolescência. .." E tive a impressão de que, se ousasse
lembrar que há exceções, ouviria alguma réplica do tipo: "Tem pai que é
cego".

Nos encontros de catequistas (em nível de coordenação regional e nacional)
insiste­-se sobre a importância da "interação entre fé e vida", mas ninguém
parece pensar na castidade como um dos aspectos dessa "vivência da fé". E,
se a cúpula fecha os olhos, é evidente que não se pode esperar que, na base,
os catequistas se preocupem em educar as crianças nesse sentido... até
porque os manuais disponíveis também não "tomam posição" de forma clara. A
coisa chegou a um ponto em que a maioria dos jovens nem pode ser acusada de
pecado, porque nunca ninguém lhes disse que isso era pecado... Alguns padres
até reconhecem que é preciso transmitir a orientação da Igreja, mas o fazem
como que a contragosto, sem demonstrar nenhuma convicção de que, de fato,
acreditam que a vida pura seja possível, desejável e saudável. Com essa
mentalidade, não admira que eles próprios encontrem dificuldades para viver
a pureza... porque nenhuma opção radical de vida se sustenta sem o empenho
que brota de uma firme convicção interior.

Protestos isolados contra a comercializaçã o de preservativos ou contra o
aborto, e até mesmo a defesa da instituição familiar acabam deslocados e
incompreensíveis para a sociedade, se, ao mesmo tempo, a Igreja não investe
na promoção dos valores morais que dão sentido a tudo isso. Muita gente não
sabe que a Igreja não condena apenas o aborto, o divórcio, o uso de
preservativos ou o casamento de homossexuais, mas também – e primeiramente – a permissividade sexual e a decadência moral que estão na origem desses
problemas. Uma coisa está necessariamente ligada à outra, pois é claro que,
se se pretende manter um comportamento promíscuo, é melhor mesmo que se use preservativo. .. Mas a Igreja não pode aprovar o preservativo, porque isso
equivaleria a uma tolerância implícita da promiscuidade. Pena que os padres
nem sempre tenham a coragem de deixar claras as razões da Igreja, e,
principalmente, de investir na formação preventiva ou na recuperação moral
da juventude.

É claro que a coerência cristã exige, em nossos tempos, um verdadeiro
heroísmo. Mas a Igreja sempre teve exatamente essa função de ser "sinal de
contradição", de remar contra a corrente do mundo. Ser cristão, hoje, não é
mais difícil do que no tempo em que os mártires eram jogados às feras. O que
nos falta agora (também a muitos padres) é a chama do amor e da fé que
inflamava os corações dos primeiros cristãos, motivando-os a tudo enfrentar
na busca pela verdadeira vida. É essa chama interior que a Igreja quer
restaurar quando fala em "nova evangelização" , mas poucos parecem ter
entendido. E, por causa da "dureza de coração" do atual povo de Deus, os
"Moisés" de hoje se vêem novamente obrigados a fazer concessões (Mt 19,8).
Mas cabe a eles, também, lutar para que isso seja superado, e, como Jesus,
ensinar que "não foi assim que Deus sonhou".

Felizmente, há muitas honrosas e preciosas exceções. Deus sempre trabalhou
com um "pequeno resto fiel", com o qual constrói o seu Reino, ainda que de
forma oculta ao mundo. O Espírito Santo não abandonará nunca a sua Igreja,
ainda que, tantas vezes, seja preciso deixar falar as "pedras" da Aids, das
drogas, do aborto, dos suicídios, da depressão ou da violência...

Margarida Hulshof

Escritora e tradutora, responsável pela coluna "Respondendo aos Leitores" do jornal católico O Lutador* *Fonte:* Jornal O Lutador

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