A Igreja não pode ceder. É óbvio...(parte 2)
Certa vez um homem que tinha muitos filhos e uma bela esposa resolve aventurar-se pelo mundo. Nas suas andanças comete adultério várias vezes. A vida de sua família desgraça-se, sua esposa é vítima de chacotas e zombarias, seus filhos também.
Arrependido o homem retorna a casa e humilha-se perante a esposa, pede perdão a ela e aos filhos por todo o mal que havia praticado. As esposa como tinha bom coração, aceitou o coração contrito de seu marido e passaram a viver novamente. Havia ainda uma certa mágoa, principalmente por parte dos filhos.
Anos passaram-se e os filhos, já crescidos, casaram-se. Um dia, voltando do trabalho, o pai vê um de seus filhos com uma mulher que não era sua esposa. Decide, pois, ter uma conversa com seu filho.
- Meu filho, bens sabes que fui infiel, trai sua mãe e carreguei este fardo por anos até me sentir perdoado. Não deves trair sua esposa, não é bom para ti, e pior é para tua esposa.
O filho reconhece em seus pensamentos que está errado, porém, por guardar ainda rancor e por ter um grande orgulho dentro de si, a ponto de não admitir seu erro, responde:
- Quem és tú para dizer "não adulteres", como bem dizes fostes infiel a minha mãe, tu não és digno de me dar conselhos.
- Tenho a experiência do êngano que cometi. E como meu filho amado digo-te a verdade, esse caminho não te levarás a lugar nenhum senão a tua desgraça e da tua família.
Muitos falaram que eu era hipócrita, indigno de falar de Deus ou da Igreja. E realmente, talvez eu seja. Sou pecador e reconheço as minhas falhas, reconheço as minhas debilidades, inclusive a debilidade de, por muitas vezes, não me achar débil. Mas acredito no perdão de Deus, no cair e no levantar. Creio que Cristo não me repreenderá - pecador, indigno, não fales de mim. Se assim julgarem não leiam o restante, não leiam o blog. Afinal de contas, quem sou eu para ser ouvido ou lido? Afinal de contas, não serão apenas mais "hipocrisias"?
Para que não seja então só minha opinião, trouxe esse artigo para discordarem de outra pessoa, não mais de mim. O texto é longo, todavia muito profundo. O autor não é católico mas tem muito bom senso, gostaria que todos o lessem na íntegra.
"Estamos indo rumo a uma ditadura do relativismo, que não reconhece nada definitivo e deixa apenas o ego e os desejos de cada um como a medida final."
Joseph, Cardeal Ratzinger (Na última homilia antes de ser eleito S.S. Papa Bento XVI).
Com a eleição do novo Papa a Igreja Católica, através do Colégio de Cardeais, deu um exemplo para o mundo e, principalmente, para as outras instituições de qualquer natureza: existem valores universais que não mudam ao sabor dos modismos dionisíacos e egocêntricos, nem de uma pseudociência que desrespeita a si mesma.
É triste ver o açodamento com que as instituições correm a se adaptar aos "novos tempos" e cada uma a se mostrar a mais "moderna" de todas, e a sofreguidão com que as pessoas precisam se mostrar modernas, "homens de seu tempo". Na área das chamadas ciências humanas as instituições abrem mão rapidamente de conceitos consagrados em nome de um duvidoso pluralismo
- que não passa do mesmo relativismo um pouco mais dourado. No entanto, as exéquias do grande Papa João Paulo II, com a admiração de todo o mundo, o ardor dos fiéis e a presença de 4 milhões de pessoas, já indicou claramente que o povo, depois de um século em que imperou a mentira relativista, está ávido de quem representa um farol a guiar a Humanidade, como o foi o pranteado.
Na mesma homilia prossegue o hoje Papa: "(No mundo moderno) A pequena barca do pensamento de muitos cristãos com freqüência ficou agitada pelas ondas, levadas de um extremo a outro: do marxismo ao liberalismo, à libertinagem; do coletivismo ao individualismo radical; do ateísmo a um vago misticismo religioso; do agnosticismo ao sincretismo e assim por diante". Não é preciso
ser católico para constatar a veracidade destas palavras. No mundo moderno - e até já inventaram uma tolice chamada pós-modernidade - confunde-se tolerância com permissividade e aceitação das diferenças com estímulo às perversões.
Sem dúvida que a tolerância exige o exame de cada questão em todos os seus lados e esta é uma das reconhecidas virtudes intelectuais de Bento XVI. Mesmo nos mais árduos e violentos debates ele é tido como alguém que mantém a serenidade até experimentar a convicção, que sempre está relacionada aos valores universais de sua crença. Foi um reformador durante o Concílio
Vaticano II, mas aos poucos se desiludiu com a queda da influência da Igreja
e a tomada de assalto por parte de apostasias e heresias. Segundo o Padre Joseph Komonchak, Teólogo e Professor de Estudos Religiosos, havia no Concílio uma coalizão de reformadores unidos apenas pelo que não queriam: uma fé extremamente formalista. Ratzinger estava no campo que esperava um retorno "à antiga Igreja bíblica, baseada na beleza e verdade dos Evangelhos", enquanto o outro campo favorecia o diálogo com a razão e a vida contemporânea. Esta tentativa de reconciliar a Igreja com a vida moderna - o que os "progressistas" exigem hoje novamente - resultou "em ideologias fanáticas, que exploraram a fé para seus próprios fins", como a
Teologia da Libertação, disse ele em seu livro "O Sal da Terra". Como Cardeal Ratzinger
várias vezes condenou esta tendência de clérigos latino-americanos como uma perversão da fé e da doutrina pela ideologia marxista.
Como o marxismo, esta verdadeira praga do século XX, invadiu todas as instituições através de sua mutação gramscista, creio ser dever de todos - mesmo dos não católicos como eu - nos unirmos a Bento XVI nesta luta contra o relativismo e o pluralismo que esvaziam todas as idéias sérias.
Quando a medicina encontra os anticorpos para um determinado germe patogênico, uma das reações deste é uma mutação resistente ao anticorpo específico. Como a sífilis e a tuberculose retornam com toda a força, Antonio Gramsci foi o laboratorista que, verificando que a sociedade ocidental havia desenvolvido os anticorpos para lutar contra a infestação do comunismo em sua forma
primeira, provocou a mutação que nada modificou no germe mas somente a sua forma de atuação: de revolucionária, passou a sutil e insidiosa; do ataque frontal, passou a invadir e agir de dentro.
Assisti de dentro à devastação causada nas instituições psicanalíticas, psicológicas e psiquiátricas pela invasão deste germe. A primeira ação é criar a dúvida - não a construtiva e necessária para a evolução natural do pensamento - mas a destrutiva que visa "desconstruir" o já consagrado, criticando quem o segue como "rígido" e intolerante. Já os "pluralistas", que aceitam qualquer coisa, tornaram-se os ídolos da moda. (Compare-se com as palavras da referida homilia: "Ter uma fé clara, segundo o Credo da Igreja, é etiquetado com freqüência como fundamentalismo. Enquanto que o relativismo, ou seja, o deixar-se levar «guiados por qualquer vento de doutrina», parece ser a única atitude que está na moda".) A tentativa de adaptar as teorias e práticas terapêuticas psicológicas aos "desafios da modernidade" por qualquer "vento de doutrina", resultou numa tal dissolução das mesmas que perderam toda e qualquer identidade. A maioria voltou-se para o estímulo à egolatria e à desconsideração e indiferença com os outros.
Falo do que participei diretamente, mas em todos os setores intelectuais ocorreu o mesmo. Na medicina o conceito hipocrático de respeito à vida também relativizou-se, transmutando-se obscenamente no abortismo - eufemisticamente chamado de "direito da mulher ao seu próprio corpo"-, na defesa da liberação das drogas narcóticas e alucinógenas e do assassinato puro e simples de embriões para fins aparentemente tão humanitários como salvar vidas, quando se sabe que as células tronco de indivíduos adultos são muito mais eficazes. Outros ramos da medicina renderam-se à egolatria dionisíaca dominante, estimulando a cosmetologia, as práticas de
modelagem corporal e aos enxertos e cirurgias plásticas (ou plastificantes?) puramente
cosméticas.
Um campo em que os efeitos do relativismo são extremamente devastadores é o
jurídico, mas deixo para outros que entendam mais do assunto.
Para se entender a má fé que rege os ataques à Igreja por parte de pseudo-católicos basta um exemplo: a acusação de que a Igreja é responsável pela morte de milhões de africanos pela AIDS, por não autorizar o uso dos preservativos. Além do fato óbvio e já dito de que ninguém é obrigado a seguir a orientação da Igreja, existem dois outros: a população de católicos africanos é mínima e, apesar de tudo, ela cresceu nos últimos 15 anos a um ritmo que varia de 5% no Sudão, passando por outros até chegar a 20% no Congo (Fonte: O GLOBO, 20/04/2005, Caderno Especial, p. 7). Mas o fato decisivo é que estudos sérios provam que os dados divulgados pela Organização Mundial de Saúde (OMS) de que 99% dos casos da AIDS africana são transmitidos por via heterossexual, são falsos. Três investigadores de renome, John Potterat, Stuart Brody e Nancy Padian, provaram, através de vários estudos entre os quais biópsias de vagina e de colo do útero, que o vírus da AIDS é incapaz de penetrar ou infectar vaginas e colos saudáveis.
Outras doenças sexualmente transmissíveis podem facilitar a infecção mas mesmo assim a influência é mínima. Apesar da OMS afirmar também que não existe homossexualidade masculina na África, desde 1920 o antropólogo Kurt Falk demonstrou que a bissexualidade é quase universal entre os membros de todas as tribos por ele estudadas e que mesmo aqueles que insistiam em negar isto, muitos sofriam de doenças anorretais transmissíveis. De qualquer modo, parece que a maioria das transmissões da AIDS na África se dá por injeções e uso de técnicas acupunturistas
http://www.townhall.com/columnists/GuestColumns/Fumento20050414.shtml
(Fonte: Michael Fumento, The African heterosexual AIDS Myth).
Quanto nome escolhido pelo novo Papa estou de acordo com meu colega de site, Marcelo Moura Coelho, que diz: "Para mim, o nome é uma homenagem a São Bento, padroeiro da Europa. Como cardeal, Ratzinger criticou várias vezes o processo de "descristianização" pelo qual o Velho Continente está passando. Seria um sinal de que Bento XVI combaterá esse processo". Ratzinger
nasceu no Dia de São Bento e como defensor intransigente da doutrina, nada mais razoável do que escolher o nome daquele legislador que codificou a Regra Beneditina, que rejuvenesceu a vida monástica, então em decadência. Para S. Bento (que foi o Papa Bento II) a idade de ouro estava no passado, nos padres do deserto, grandes solitários e ascetas que ignoravam totalmente o mundo exterior e suas "vãs seduções". A Regra Beneditina visava criar as condições para uma vida em comum e prescreve o silêncio, a obediência e a humildade como instrumentos. O sentido da medida e do equilíbrio é uma das marcas essenciais da espiritualidade beneditina. O Abade é um servidor da
comunidade e deve ouvir os conselhos tanto dos mais velhos quanto de todos os monges.
Para aderir ao esforço anti-relativista de Bento XVI não é preciso concordar com tudo que a Igreja Católica prega. Eu mesmo sou contra a proibição do divórcio e o uso dos contraceptivos e acho estranho o celibato obrigatório dos padres. Mas só me resta dizer alto e bom som: não sou católico! Nem ninguém é obrigado a ser, diferentemente do mundo islâmico ou comunista onde os "infiéis" sofrem toda a sorte de sanções, até a morte. Aos que se dizem católicos e querem mudar a essência dos ensinamentos cristãos só resta o velho ditado: os incomodados que se mudem! E podem! Sem sanções! Esta é a dívida que temos todos os não judeus e não cristãos para com a tradição judaico-cristã ocidental: a liberdade de não ser nem uma coisa nem outra e viver sem ser incomodado! Trocar isto pela ditadura relativista? Nem pensar, seria suicídio!
Heitor De Paola é Médico Psiquiatra e Psicanalista no Rio de Janeiro.
Membro da International Psychoanalytical Association e Clinical Consultant, Boyer House Foundation, Berkeley, Califórnia, e Delegado Internacional no Brasil do Drug Watch International. Possui trabalhos publicados no Brasil e exterior.


